Em três meses de quarentena, 468 pessoas foram baleadas no Grande Rio, 239 morreram

Ao todo, 468 pessoas foram baleadas durante o isolamento social na Região Metropolitana do Rio. Destas, 239 morreram.

Em comparação com 2019 — quando 350 pessoas foram mortas e 363 ficaram feridas entre os dias 14 de março e 13 de junho —, houve queda de 32% na quantidade de mortos e de 37% no número de feridos.

O levantamento da plataforma de dados sobre violência Fogo Cruzado, com base nas primeiras medidas implementadas no decreto no Diário Oficial do Rio de Janeiro para conter o avanço do novo coronavírus, foi feito entre os dias 14 de março e 13 de junho. Apesar do afrouxamento gradual em alguns serviços, o isolamento se mantém para os serviços considerados não-essenciais.

Durante estes três meses de quarentena, a plataforma Fogo Cruzado mapeou 1.405 tiroteios/disparos de arma de fogo.

Dado representa uma queda de 36% em comparação com o mesmo período de 2019, quando houve 2.207 registros.

Dos 1.405 tiroteios mapeados nestes 3 meses, em 373 deles (27%) houve presença de agentes de segurança*, o que indica uma queda de 38% em comparação com os 606 (27%) registros com a participação de agentes no mesmo período do ano passado. Apesar da queda, porcentagem de tiros é a mesma.

Entre os baleados, houve 36 agentes de segurança**, quatro crianças (com idade inferior a 12 anos), 8 adolescentes (entre 12 anos e 18 anos incompletos), 1 idoso (a partir de 60 anos) e 14 mulheres foram baleados no Grande Rio na quarentena. Houve ainda 14 vítimas de bala perdida***, 8 pessoas baleadas dentro de casa e 12 casos em que 3 ou mais civis foram mortos a tiros em uma mesma situação, totalizando 52 mortos nestas circunstâncias.

No dia 15 de maio, uma operação policial no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, terminou com 13 mortos e um agente de segurança atingido por estilhaços, sendo o maior caso com múltiplas vítimas registrado este ano.

MEDO DENTRO DE CASA

Entre as medidas para conter o coronavírus durante a pandemia, ficar em casa é a principal delas, mas para as 8 pessoas baleadas dentro de casa, a medida trouxe ainda mais medo. O adolescente João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, foi morto durante uma operação conjunta entre as Polícias Civil e Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no dia 18 de maio. João Pedro estava dentro de casa com os primos quando agentes de segurança entraram atirando. Ele, que chegou a ser levado de helicóptero pela polícia, não resistiu aos ferimentos e morreu. O corpo do adolescente só foi encontrado no dia seguinte pela família. Casa onde o adolescente estava ficou com 72 marcas de tiros.

No dia 25 de maio, Bianca Regina Oliveira, de 22 anos, foi vítima de bala perdida enquanto dormia dentro de casa. Bianca, que morava na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, foi atingida com um tiro de fuzil na cabeça, durante intenso tiroteio em operação policial na região. Bianca, que chegou a ser levada para a UPA, recebeu alta no dia seguinte.

Após operações policiais representarem risco para a população dentro de suas casas durante o período de quarentena, o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou, em 5 de junho, a suspensão de operações em favelas do Rio de Janeiro enquanto houver pandemia. Para o ministro Edson Fachin, “deverão ser adotados cuidados para não colocar em risco ainda maior a população, a prestação de serviços públicos sanitários e o desempenho de atividades de ajuda humanitária”. Decisão levou em conta os últimos acontecimentos envolvendo o adolescente João Pedro.

MÉDIAS DIÁRIAS

Com uma média de 15 tiroteios por dia, o período de quarentena (14 de março e 13 de junho) teve 1.405 registros. Houve um aumento na média diária em comparação com o período pré-quarentena (entre os dias 1º de janeiro e 13 de março), quando, dos 1.024 tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio, houve em média 14 tiros por dia

Houve queda de 20% na média de tiroteios por dia com a participação de agentes de segurança: foram 373 durante a quarentena (média de 4 tiros por dia) e 363 no período pré-quarentena (média de 5 tiros por dia).

Houve ainda queda de 25% na média diária de mortos no período de quarentena (3) e de pré-quarentena (4). Índice se manteve também na média diária de feridos: foram 2 durante a quarentena e 4 no período pré-quarentena. Ao todo, 521 pessoas foram baleadas entre os dias 1º de janeiro e 13 de março e 453 entre os dias 14 de março e 13 de junho.

REGIÕES

Durante o isolamento, a zona norte continua sendo a região com mais tiroteios/disparos de arma de fogo, foram 524 registros: 37% do acumulado em toda região metropolitana (1.405). Em seguida, vem a Baixada Fluminense (286), Leste Metropolitano (267), zona oeste (256), Centro (42) e zona sul (30). Em terceiro lugar no ranking, o Leste Metropolitano — que abrange os municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu e Tanguá — teve o maior número de mortos (86) e de feridos (85).

MUNICÍPIOS

Rio de Janeiro (852), São Gonçalo (175), Duque de Caxias (77), Niterói (67) e Belford Roxo (63) foram os municípios que tiveram o maior número de tiroteios durante a quarentena. O Rio de Janeiro, que concentrou 61% dos tiroteios no Grande Rio (1.405), também teve o maior número de baleados: foram 180, destes 86 morreram.

BAIRROS

Vila Kennedy (93), Complexo do Alemão (48), Cidade de Deus (43), Tijuca (35) e Vicente de Carvalho (33) foram os bairros do Grande Rio que concentraram o maior número de tiroteios nestes 3 meses de quarentena.