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Escuta da investigação que prendeu PMs suspeitos revela que comandante de batalhão envolvido estimulava homicídios. ‘O chefe quer caixão’, disse um policial

Em uma das escutas telefônicas feitas durante a investigação que resultou na operação que capturou nove PMs hoje envolvidos em extorsão, tortura e sequestro de criminosos, há uma conversa entre o policial militar Adelmo da SIlva Guerini e outro Biage em que primeiro queria saber informações sobre a área do batalhão.

Biage, inicialmente, se mostrou receoso em passar informações sobre valores de propina, dizendo apenas que o batalhão “é fraco”.

Adelmo, então, perguntou se “chega a mil” e Biage, de forma ainda receosa e tentando falar em códigos, respondeu: “É… Isso aí… é isso aí… é isso aí. Tipo hoje, hoje, saindo daqui: oito. Oito, zero, zero. Entendeu? Oito zero zero. Mas, tipo assim, tem rapaziada boa para gente trabalhar, rapaziada boa para trabalhar. Às vezes dá para dá para trabalhar mais alguma coisa, entendeu parceiro?”

O diálogo prosseguiu com Adelmo perguntando se “o pessoal aí faz troia”, ou seja, espécie de tocaia para surpreender supostos traficantes. Biage respondeu que sim, mas repete que lá é fraco de dinheiro, que se pegar alguém, pega “merreca”.

Adelmo, então, disse que o tenente coronel Andre Araújo quer caixão, em nítida afirmação no sentido de que o então comandante do 21º BPM autorizou seus subordinados da P2 a matarem criminosos.

Biage perguntou, em seguida, se ele gosta e Adelmo disse que “à vontade”. Biage, então, concluiu “vai matar muito lá”. Biage então, indicou a Favela da Linha como outra favela para Adelmo e seus comparsas lucrarem, dizendo que comentavam “que lá era o shopping”, pois “quando queriam fazer um saque rápido, iam lá”

‘Fica de gracinha, bala no rabo’

Em outro diálogo, referente aos dias 26 e 27 de março de 2020, demonstra-se, com clareza, que os denunciados usam de violência, inclusive, através de autos de resistência forjados, para impor medo em criminosos que não se submetem às exigências de propina. Na ocasião, Adelmo encaminhou para Wilian fotos de uma ocorrência de tráfico e de um elemento morto com uma perfuração de projétil de arma de fogo nas costas, dizendo: “Aí compadre, menos um”.

A conversa prossegue com inúmeras demonstrações de que tal morte só ocorreu porque houve recusa ao pagamento de propina, conforme se verifica da mensagem de Adelmo que diz que o criminoso dizia que se a barca quisesse dinheiro teria que ir buscar. Por sua vez, Wilian diz que o “jeito é colocar esse fdp no lugar dele” e que “fica de gracinha,, bala no rabo”

Na sequência,, Adelmo prosseguiu demonstrando que o modus operandi da quadrilha é exatamente este: quando o criminoso se recusa a pagar a propina exigida, o grupo age cometendo homicídios.. O policial relatou que “agora já querem papo”, porém, “agora já falamos que vamos só matar”. Wilian, então, concordou com tal ato e estimulou seu comparsa a continuar atuando assim, dizendo que se fizerem outras ocorrências como esta os criminosos ficarão com medo e, com isso, “vai aumentar o papo”, ou seja, valor da propina.

Informantes

A investigação aponta que os denunciados, inicialmente, no período de agosto de 2019 a fevereiro de 2020, integravam a equipe Delta do GAT do 24º Batalhão da Polícia Militar, oportunidade na qual exigiam o pagamento de propina de traficantes, porquanto valiam-se de informações a respeito de criminosos atuantes da área do batalhão.

Destaca a peça acusatória que a obtenção de vantagens indevidas através de acertos de propina com criminosos, em especial traficantes, valia-se de informantes, como Kalunga”, e de intermediários que buscavam o valor da propina, destacando-se a atuação do arrecadador não identificado que seria possivelmente o policial militar cujo contato salvo na agenda de Adelmo Guerini é Rafael Patamo.

Apurou-se que Kalunga fazia contato constante com os denunciados e integrantes do GAT do 24º BPM, combinando com eles de se dirigir a bocas de fumo e se passar por usuário de drogas para, em seguida, repassar as informações aos denunciados, recebendo, em contrapartida, dinheiro, drogas e outros materiais apreendidos com os criminosos, como aparelhos celulares.

A investigação demonstrou, também, que havia, entre os denunciados integrantes do GAT do 24º BPM uma verdadeira divisão de valores oriundos do pagamento de propina e desvio de dinheiro decorrente de apreensões, em especial pelo diálogos entre Adelmo e Santinho, em que são citados expressamente valores recebidos pelos dois e demais integrantes da ala Delta do GAT do 24º BPM.

Em diálogo constante nos autos, o PM Benício relatou que teriam ido a uma casa de endolação de droga e apreendido grande quantidade de material entorpecente, queixando-se, contudo, de não terem encontrado dinheiro. O agente suspeito ainda finaliza o diálogo confessando que ficaram com o material apreendido e não apresentaram à unidade policial.

Um outro informante, Thiaguinho tinha a função indicar possíveis criminosos a serem abordados e extorquidos, tudo com a finalidade de gerar vantagem indevida aos denunciados:

“THIAGUINHO: “Fala aí filhão, bom dia. Deixa eu te falar. Tem uns trabalho aí também para gente fazer essa semana aí, se tu quiser, do disque droga. A outra vez que eu peguei aqui com os maluco da PM aqui, o cara pagou sete conto, sete mil. Aí com vocês, que são mais elaborados, trabalha mais certinho, de repente arruma até mais um dinheiro com ele aí mano. Vê aí, se quiser fazer a gente faz essa semana que tá vindo”

THIAGUINHO: “Esse bagulho aí é o seguinte. Eu ligo para ele, o cara vem e entrega. Aí a gente armou uma campana para ele aqui, foi e pegamos ele. Ele acabou de me entregar, aí saiu de moto. Aí os cara foram e agarraram ele, entendeu. Aí começou a desenrolar. Aí primeiro pintou três mil, aí depois chegou até os sete. Dos sete não conseguiram mais”

Adelmo, Marinho, Santinho e Sardinha recrutaram para a organização criminosa os policiais militares da ativa Biage e Wiliam que, além de oferecerem informações sobre criminosos locais que poderiam ser vítimas do bando, estimulavam os demais integrantes a praticarem os crimes de corrupção, extorsão, tortura, peculato e homicídio.

Em um diálogo entre Wiliam e Adelmo. o primeiro disse que tem uma “molezinha pra pegar com aqueles moleques” “lá no Cadore”, ressaltando que são “2 casas para bater” e que eles “estão vendendo para caralho”.

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