Casos de Políciacorrupção policialinvestigaçãomilíciaOperação Policial

Escutas telefônicas mostraram o envolvimento de policiais com a milícia. Paramilitar oferecia presentes aos agentes suspeitos, disse que ia pagar propina de R$ 5 mil e participava de grupo de WhatsApp de serviço reservado da PMERJ

A investigação que resultou na operação de hoje contra policiais militares e penais envolvidos com a maior milícia do Rio de Janeiro, a Liga da Justiça ou a Firma revela contatos telefônicos diretos via aplicativo de mensagens entre os agentes públicos e o miliciano Francisco Anderson da Silva Costa, o Garça, na qual ele oferta presentes aos funcionários públicos como  como camisas e acessórios de arma por parte de ´Garça.

Em contrapartida, este solicita fotos dos agentes utilizando os presentes recebidos – isolando-se apenas esta parte da relação, verifica-se a nítida intenção de passar adiante as imagens, para exibir a referida penetração e o ´exército que recrutou´ a fim de atuar em prol dos seus interesses no que é atendido pelos agentes.

Luiz Bastos de Oliveira Júnior, o PQDzinho era o principal interlocutor entre Garça e os agentes da lei, principalmente em relação ao recolhimento das ´metas´ (propina). 

Em uma escuta, Garça determinou a PQDzinho que queria ao menos R$ 5  mil porque ele vai pagar o ´GAT´ para fazer blitz em ´pontos estratégicos´ e logo depois diz que é preferível que seja a ala do policial Oliveira´. 

Em 26 de fevereiro de 2021, ´PQDzinho´ encaminhou a ´Garça´, por meio de mensagem de whatsapp, o número de telefone que seria o contato do ´tenente´. Este foi identificado como o tenente da Polícia Militar conhecido como França que, na época, estava lotado no 27º BPM/Santa Cruz. 

. Como em um dos diálogos, PQDzinho afirmou que ´Oliveira´ estaria de plantão no dia 13 de fevereiro de 2021, e se apurou junto ao comando que o militar que estaria de serviço no dia seria o presente investigado. 

O mesmo é reiteradamente referido pelos milicianos, sendo, inclusive, encaminhadas mensagens a este que seriam provenientes de Oliveira da seguinte forma: ´Fala comigo meu amigo, sargento Oliveira, do GAT, GAT mais psico do 27…´.

 Foi interceptado, inclusive, trecho extraído de áudio do dia 25 de fevereiro de 2021, passagem onde o policial ´Oliveira´ se coloca à disposição para somar com o grupo criminoso.

Tanto Oliveira quanto França eram lotados no mesmo batalhão de polícia militar. 

Amigo S´, é policial penal, possui estreita relação com a quadrilha.

Conforme material extraído do celular apreendido, este informou Garça que está no sítio e manda uma foto de uma obra no mesmo. Este declarou que a obra está sendo feita por força recebida do ´amigo de cima´, o que inculca ter recebido dinheiro do chefe da milícia. 

Amigo S recebeu camisas de presente de Garça. Seu contato é tamanho que ´Garça´ enviou duas fotos a ele, onde aparecia de balaclava, colete balístico, portando um fuzil e carregadores informando que estaria fazendo um ´Recon´. 
Garça´ também mandou uma camisa com dizeres do SOE de presente ao policial penal Ismael. Em seguida, solicitou a ele que o mesmo lhe enviasse uma foto vestindo a camisa com o rosto cortado. Disse que tem que mandar para amigo do Choque dizendo que o contato dele é do Ceará, para ver o que pode ´melhorar´: 

No dia 12 de fevereiro de 2021, por áudio, ´Garça perguntou a Ismael se PQDzinho enviou uma blusa do GIT para que o mesmo entregasse ao Roger. O policial penal afirmou que sim e que irá providenciar a entrega. 
Em 15 de fevereiro de 2021, houve um diálogo entre o miliciano e o policial penal, onde ´Garça´ pede para ser adicionado ao grupo do Whatsapp do SOE. Ismael disse que é complicado, pelo fato de que no grupo há chefes e o subsecretários. O miliciano retrucou e disse participar de um grupo da P2 (Serviço Reservado da Polícia Militar) do Estado todo: 

Alcimar Badaró Jacques, alcunha ´Bada´ é policial penal. Em um diálogo datado em 12 de fevereiro de 2021, ´Garça´ e ´Badá´, conversaram sobre a consideração que um tem pelo outro e, ainda, citaram uma camisa que o miliciano teria presenteado o policial penal. 

Na mesma conversa, o criminoso pediu ao policial penal o seu aval para que o mesmo possa usar a camisa com o símbolo do GIT, grupamento vinculado a SEAP: 

Em outro diálogo, ´Garça pediu valores sobre VIP a ´Bada´, pois está tendo muitas reuniões. O policial penal disse que o miliciano precisa ouvi-lo e marca uma reunião em sua própria casa. 

O agente público disse a ´Garça que o deixe resolver tudo, pois se ele (miliciano) é empresário, será até o final. O miliciano afirmou que sentiu ´firmeza na dinâmica de trabalho´ de Badaró.

 Em outra passagem, o miliciano  reencaminhou uma mensagem a Badaró, dizendo que o ´amigo´, já foi orientado a fazer tudo que o Marcelo mandá-lo fazer dentro da Secretaria, e que será feito sem hesitar; ´tudo que for pedido pela nossa organização, será feito sem hesitar´. 

Logo após, encaminhou dados qualificativos de um policial penal chamado Deiverson. O criminoso pede que Badaró apague a conversa após a leitura. 

O policial penal Feitosa ou Feio. Sua identificação se deu com a análise da mensagem extraída onde este disse que estaria de serviço no dia 16 de fevereiro de 2021. Ele era o responsável por incluir ´Garça´ em grupos de Whatsapp voltados a usuários vinculados às forças de segurança: 

Em áudio datado no dia 15 de fevereiro de 2021, Feitosa disse que que vai colocar ´Garça´ no grupo, afirmando que o mesmo seria da SEAP. Instruiu que se alguém do grupo perguntasse ao miliciano era para o mesmo responder que era da SEAP. Ao final, afirmou que ninguém vai perguntar nada, pois o administrador do grupo é amigo dele. 

Segue a transcrição: Em diálogo datado de 01 de março de 2021, entre ´Garça e ´PQDzinho´, pode ser verificado que Feitosa´ também colaboraria com a organização criminosa no que tange ao recolhimento de ´metas´. 

Tal era o envolvimento que Feitosa participava até de almoço ofertado pela milícia. 

O PM Nun mantinha contato com ´Garça´ acerca da supervisão do dia na Polícia Militar, bem como fornece outras informações que lhe são demandadas. Segundo consta da investigação, nos trechos analisados, foi possível verificar também que era através de Nun que Garça enviava mensagens ao comandante do batalhão da área´ Nun foi investigado por integrar uma organização criminosa responsável pela comercialização de cigarros de procedência ilícita, já tendo sido alvo de busca e apreensão em uma operação desencadeada pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. 

Além disso, a organização criminosa da qual Nun faria parte, seria responsável pela tentativa de homicídio em face de um policial que na época, estava lotado na 39ª DP/Pavuna e investigava o grupo. 

O policial penal de alcunha Gue se comunicava reiteradamente com Garça. Em outro diálogo, consultam placas de veículos e informações referentes à bancos pertencentes aos órgãos estatais de persecução: 

Na sequência das mensagens Gue disse para Garça´ que está ligando o computador, mas que o sistema estaria ´fora do ar´ e disse que vai continuar tentando, quando conseguir avisa. Na imagem extraída, apura-se que o notebook estaria conectado através do IP 10.30.34.59, possivelmente algum IP de acesso da Polícia Civil, além de estar conectado na página da intrapol: 

Nas imagens enviadas por Gue existem mais duas ´abas´ abertas, uma no portal da segurança e outra no Login Sinesp Segurança, que são sistemas de consultas habilitados para os servidores da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. 

Segundo restou apurado na investigação, o carro indagado – Toyota – é um dos veículos utilizados pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro como viatura descaracterizada, o que leva a conclusão que Garça estaria usando agente do estado para monitorar investigações. 

Apuraram que há um áudio, onde aparece uma voz feminina, que estaria ao lado de Gue, durante a conversa para identificação da dona do veículo e dos deslocamentos realizados. 

Seguindo, no dia 14/02/2021, Garça agradeceu a pesquisa e informa que o investigado seria melhor que investigador particular.

 No áudio de 14/02/2021: ´Brother, Pavuna, ele fica direto em Seropédica, roda direto em Seropédica, Seropédica, Seropédica… a única vez que ela saiu foi pra Bongaba, Magé, em julho de 2020, depois volta fica em Seropédica direto cara…ai…teve uma passagem em Niterói, Rio Bonito em outubro, depois volta Caxias, ali na Whashington Luiz, logo nos Fuzileiros Navais, é… no início alí na linha vermelha né, depois só em cima, só em cima, a última que eu peguei foi em Itaguaí em janeiro desse ano, não tá saindo não, e o Corola eu já futuquei também, eu olhei todos os carros dele, todos os seis, tem carro que é de SP, ele morava em SP antes, é tipo Del Rey, Fiorino, carro que não aguenta vajar para longe entendeu, é essa Range Rover não está no nome dele não¿´ 

No dia 15/02/2021, Garça o indagou sobre qual melhor local para levantar alguma investigação. O policial penal informa as áreas de Bangu e Senador Camará.. ´O agente público informou para Garça´ as áreas que, justamente, seriam de atuação da 34a DP – Bangu, delegacia em que sua esposa estava lotada. 

O policial penal pediu a ´Garça´ para esperar até o final do dia, pois haveria alguma mudança nas lotações no boletim e diz que está esperando publicar.´ Algumas horas depois, Gue retorna informando o deslocamento do veículo, ´Garça pergunta se tem algum deslocamento pela área de Santa Cruz e o policial penal informou que o ´amigo´ só consegue pesquisar em rodovias federais. 

Apurou-se facilmente que o investigado pretendia usar a posição da esposa como Delegada de Polícia Civil para obter acesso aos sistemas corporativos privados para fornecer informações aos milicianos. 

O policial penal Wesley foi questionado em um diálogo datado em 08 de fevereiro de 2021,  se o mesmo usa Glock, pois gostaria de dar uma ´parada´ a ele. O policial penal disse ao miliciano que não utiliza Glock e diz que é ´raiz´, igual ao seu interlocutor. 

Na mensagem de áudio do dia 08 de fevereiro de 2021, as 21h43min, ´Garça´ concordou e diz que ia dar para ele, mas que o remetente é dos dele. 

No dia 09 de fevereiro de 2021, ´Garça´ empreendeu novo diálogo com o policial penal e pergunta se o mesmo está trabalhando.

 Em 10 de fevereiro de 2021, ´Garça´ disse que mandou entregar a ´parada´ dele, dando a concluir que seria um presente. Afirma, ainda, que mandou para o Badaró e para o ´Roger´. Tal era a interrelação entre os dois que Garça pediu aulas de tiro, e, depois informa ter ajustado a arma. 

Do que se conclui de todo o material apresentado se dá no sentido de que Garça cooptou agentes do estado para recebimento de informações privilegiadas e apoio tático. 

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo