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Livro diz que milicianos, policiais, bicheiros e traficantes (TCP) se uniram contra o CV

No livro  A República das Milícias “Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro”, o escritor Bruno Paes Manso, explicou que a união contra o Comando Vermelho colocou do mesmo lado milicianos, policiais, bicheiros e traficantes. 


Essa aliança ajudou as forças de segurança a controlar o crime sem prejudicar os negócios da milícia e do tráfico de drogas. 


Apenas o CV — principal rede de traficantes do Rio — e os moradores dos bairros controlados pela facção saíram perdendo. A estrutura dessa rede era mais importante do que os nomes por trás dos grupos.


Alguns podiam ser mortos e presos desde que a aliança continuasse. As aparências deviam ser preservadas e os limites, respeitados. 
No Morro do Dendê, na Ilha do Governador, por exemplo, a condescendência das autoridades com os integrantes do grupo de Fernandinho Guarabu chegou ao fim quando os cabeças da facção ultrapassaram uma dessas fronteiras. Eles mataram o major Alan de Luna Freire, que atuava no setor de Inteligência do 17o Batalhão e investigava o grupo.


  O major havia instalado uma câmera na casa onde Guarabu e outros integrantes da quadrilha se encontravam, gravando imagens importantes para a investigação sobre drogas e corrupção policial. 


O oficial foi executado em novembro de 2018, com mais de vinte tiros de fuzil, quando chegava em sua casa em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.


A polícia perdera o controle do grupo. Não havia mais clima para a relação entre o grupo de Guarabu e os policiais. Perto das 5h30 de uma manhã de junho de 2019, cerca de cem homens, entre policiais do Bope e do 17o Batalhão, fizeram uma operação no Morro do Dendê para cumprir três dezenas de mandados de prisão. 


Guarabu, que acumulava anos de informações valiosas sobre a promiscuidade entre o crime e o Estado, foi morto junto com seus comparsas mais próximos. Segundo a polícia, eles reagiram para não ser presos. 


O susto foi grande, Marcelo PQD ameaçou invadir o Morro do Dendê, mas o plano foi descoberto pela polícia e abortado. O TCP seguiu no comando nos meses seguintes. 

O morro continuou reduto de um grupo armado e poderoso, com cerca de duzentos fuzis. Preservar a força desse grupo era importante para evitar o crescimento do CV, presente na comunidade vizinha, a do Barbante, a cerca de sete quilômetros de distância.

  A aproximação entre as milícias e o Terceiro Comando Puro começou depois da CPI das Milícias e do avanço das UPPs. A CPI desestruturou os grupos de Rio das Pedras e da Liga da Justiça, porém a chegada de novos aliados vitaminou o poder da rede — o capitão Adriano Magalhães da Nóbrega (mais detalhes no final), com suas conexões no bicho e na polícia, foi uma adesão de peso. 


As UPPs também desempenharam papel decisivo. Como foram implantadas sobretudo nos territórios do Comando Vermelho, a facção sofreu um baque e precisou se reorganizar. 


Com a perda de armas e drogas no Alemão, o grupo contraiu dívidas com fornecedores — entre eles, o PCC. Mudanças foram necessárias. 
O quartel-general da facção teve que deixar o Alemão e migrar para o Complexo do Chapadão, também na zona norte. A dívida elevada se somou à queda nas vendas da droga. Era a oportunidade ideal para os rivais ocuparem espaços de poder.

  Tanto para as milícias como para o TCP, havia muito a ganhar com a União 5.3. Agora havia um propósito capaz de organizar os diversos grupos envolvidos no mercado ilegal e informal do Rio, uma economia cada vez mais relevante no estado. 


A construção da hegemonia de um grupo sobre os demais — nos moldes do que o PCC tinha conseguido em São Paulo — seria o salto necessário para a construção da nova rede 5G, com mais conexões e eficiência. Para os milicianos, seria preciso abandonar a resistência ao comércio de entorpecentes. O tráfico, poderoso e rentável, não podia ser o antagonista do grupo e precisava ser cooptado, desde que as vendas nos territórios fossem regulamentadas. 


  A parceria ampliou a capacidade tática e operacional para invasões de territórios. Drones, coletes à prova de balas, uniformes militares e rádios de comunicação se tornaram artefatos comuns no planejamento desses conflitos, assim como o aprendizado de décadas em operações policiais nas incursões em comunidades, compartilhado com criminosos aliados. Até o aluguel do caveirão — o veículo blindado usado em invasões — para integrantes do TCP invadirem comunidades ligadas ao CV se tornou recorrente.  

  Investigações apontaram que a invasão da Cidade Alta, por exemplo, realizada por Peixão e seu bando em dezembro de 2016, ocorreu com ajuda de um blindado que teria sido alugado por 1 milhão de reais.
 Antes da invasão, uma grande operação policial prendeu 45 traficantes do CV e apreendeu 32 fuzis, entre eles modelos potentes e modernos, como AR-10, AR-15, AK-47 e Sig Sauer. 


A Cidade Alta, considerada um reduto tradicional do CV, caiu sem grande resistência. 


Em São Gonçalo, numa operação policial feita com o caveirão, imagens registraram um traficante do TCP, Michael Zeferino da Silva, o Jogador, tirando a touca ninja e olhando para a câmera ao lado dos policiais. 

No mesmo ano, outro escândalo envolveu traficantes do TCP, que posaram para fotos, armados e sem camisa, dentro de um blindado policial. 
Também era possível realizar ações casadas. Em abril de 2019, os traficantes da Serrinha invadiram comunidades do Cajueiro, na zona norte. 


Na mesma hora, milicianos da região do Fubá atacavam um dos últimos redutos do CV na Praça Seca, a comunidade de Bateau Mouche. O grupo a que pertenciam esses milicianos era liderado por Macaquinho, Leleo e Playboy.


 Para tomar o território, eles receberam ainda o apoio de cinquenta homens de outro grupo, vindo da região de Campo Grande e Santa Cruz, comandado por Wellington da Silva Braga, o Ecko. Ecko e seus bondes se tornaram a principal frente de expansão das milícias para outros territórios. Ele também inovou nas estratégias de crescimento, fazendo parcerias na Baixada Fluminense e no interior do estado, com negócios semelhantes a franquias, nos quais ele oferecia apoio, segurança armada e contatos políticos aos pequenos, em troca de uma parcela dos lucr

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