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Passo a passo: como o MPRJ e a polícia chegaram até Crivella e como funcionava o esquema

As investigações que chegaram até o esquema de propinas na Prefeitura do Rio de Janeiro tiveram início mediante a instauração do Inquérito Policial n.º 921-00263/2018 em decorrência do acordo de colaboração celebrado com Sérgio Mizrahy, preso preventivamente no âmbito da Operação “Câmbio, desligo”, deflagrada pela Força-Tarefa da “Lava Jato” no Rio de Janeiro, em 03/05/2018, como desdobramento das Operações “Calicute” e “Eficiência”, a qual investigou a prática de crimes de corrupção, lavagem de capitais, cartel e fraudes a licitações pela organização criminosa liderada pelo ex-governador doEstado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

No acordo de delação premiada, Mizrahy e outros colaboradores aderentes prestaram depoimentos e apresentaram diversas provas que revelaram ao Ministério Público a suposta existência de um intrincado esquema criminoso envolvendo membros da Administração Municipal.

Ele envolvia empresários, pessoas físicas e jurídicas que funcionavam como “laranjas”, além de operadores, os quais, apesar de não possuírem qualquer vínculo efetivo com a estrutura da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, interferiam nas tomadas de decisão, agilizando pagamentos a empresas específicas e interferindo nos processos de licitação, de forma a beneficiar aqueles empresários que assentiam em pagar propina ao grupo criminoso aparentemente gerenciado pelo homem de confiança do Prefeito Marcelo Crivella, Rafael Ferreira Alves, que, por sua vez, contava com o doleiro Mizrahy para “branquear” os valores recebidos.

De acordo com os depoimentos prestados por Mizrahy à Polícia Civil, a empreitada criminosa teria se intensificado em 2016, durante a campanha eleitoral de Crivella, ocasião em que Rafael Alves lhe pediu que providenciasse contas bancárias pelas quais pudesse receber quantias em espécie a serem utilizadas na referida campanha.

Uma vez eleito Crivella, Alves passou a ocupar uma sala na sede da Riotur, mesmo sem exercer qualquer cargo público, local onde o colaborador esteve por diversas vezes para lhe entregar valores em espécie provenientes das operações de troca de cheques mediante cobrança de “taxa de serviço”.

Mizrahy relatou ainda que Rafael Alves cobrava propina para autorizar o pagamento de faturas atrasadas a empresas credoras, destinando o percentual de 20%a 30% a Marcelo Alves, seu irmão, então presidente da Riotur e outro percentual ao prefeito carioca.

E ainda a conferir verossimilhança às declarações de Mizrahy o Ministério Público juntou cópias de mensagens trocadas via WhatsApp entre integrantes do grupo criminoso, em que cobravam o recebimento de determinada quantia em espécie a pedido do “Zero Um”, codinome atribuído a Crivella.

De início, foram detectadas diversas manobras criminosas do grupo no âmbito da Riotur–então presidida por Marcelo Alves, consistentes no direcionamento de contratações de empresas para fornecimento de estrutura para desfiles de carnaval, solicitação de propina para viabilizar a redução de valores que seriam oficialmente pagos a título de aluguel dos espaços destinados aos camarotes da Marques de Sapucaí e burla da ordem cronológica dos pagamentos devidos pelo Tesouro Municipal, tudo culminando com a lavagem dos capitais obtidos a título de propina.

Após a diligências realizadas em 10/03/2020, foram obtidas várias outras provas que apontavam para o envolvimento de novas personagens ligadas ao esquema criminoso e levavam à constatação de que o grupo atuavanão só no âmbito da Riotur, mas em diversas Secretarias Municipais, o que reforçaria a suspeitanão só acerca daciência, mas também deanuência e possível participação de Crivella, cuja proximidade com Rafael Alves, apontado como o gerente do esquema criminoso, restou patente.

De fato, Rafael Alves apesar de jamais ter possuído qualquer cargo na Prefeitura do Rio de Janeiro, influía diretamente nasmais variadas tomadas de decisão do Prefeito, escolhendo oempresas para prestar serviços aos mais diversos setores da Administração, além de apontar pessoas para ocupar cargos-chave, tudo a firmar a imagem de que, realmente, era o homem de confiança do prefeito carioca de modo a sugerir que este não só anuía com os esquemas criminosos, mas deles também participava, chegando, inclusive, a assinar pessoalmente documentos a fim de viabilizar os negócios do grupo criminoso.

Segundo as investigações, Crivella era o chefe da organização criminosa da quadrilha instalada no âmbito da Prefeitura do Rio de Janeiro com a finalidade de auferir ganhos ilícitos das mais variadas formas, salvo raras vezes, não participava diretamente das reuniões em que eram feitas as tratativas acerca dos contratos espúrios a serem firmados entre empresários e o Município.

De acordo com a den[uncia, o envolvimento de Rafael Alves saltava os olhos e, por outro lado, a ciência do prefeito acerca de tais fatos é facilmente extraída de diversas conversas mantidas entre os envolvidos ou entre alguns deles e o próprio Crivella A, algumas bem explícitas sobre a “roubalheira” no seu governo e sobre a exigência de “retorno financeiro” no “investimento” que nele (o prefeito) havia sido feito.

Crivella se locupletava dos ganhos ilícitos auferidos pela organização criminosa, que, na realidade, se instalara no Município já com tal propósito, pois, do contrário, não colocaria o seu futuro político em risco apenas para favorecer terceiros, como mera “dívida de campanha”.

Segundo o MP, o prefeito recentemente anunciou a sua intençãode concorrer ao governo do Estado nas futuras eleições, quiçá com os mesmos objetivos espúrios.

Crivella também foi acusado de receber propinas da Fetranspor, entre os anos de 2010 e 2012, época em que era senador. Totalizaram R$ 450 mil pagamentos estes que eram entregues aotambém denunciado Mauro Macedo, m dos seus operadoresfinanceiros, em uma sala comercial na Rua da Candelária, alugada por Crivella.

Outra denúncia também no que diz respeito à lavagem de dinheiro fala da estreita telação entre Crivellha e o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Mauro Macedo, e Eduardo Benedito Lopes, bispo da mesma igreja, mediante o qual foi identificada e comunicada movimentação financeira anormal no âmbito daquela instituição religiosa, na ordem de quase seis bilhõesde reais no período compreendido entre 05/05/2018 e 30/04/2019, o que sugere a indevida utilização da Igreja na ocultação da renda espúria auferida com o esquema de propinas.

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